O Cinema tem uma longa relação com o Dinheiro, mas nem sempre com as finanças em sentido estrito. Há muitos filmes sobre ambição, crime, poder ou luxo. Já filmes verdadeiramente centrados em bolsa, banca, especulação, investimento e crises financeiras são menos frequentes. Ainda assim, alguns conseguiram furar essa barreira e transformar temas que, à partida, poderiam parecer áridos em grandes sucessos comerciais. Entre retratos de corretores sem escrúpulos, impérios erguidos sobre a ganância e histórias de colapso financeiro, Hollywood encontrou uma forma de unir as Finanças e a Sétima Arte.
Quando se observam as receitas mundiais de bilheteira, destacam-se três títulos ligados de forma clara ao universo das finanças: O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), Wall Street (Wall Street) e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street: Money Never Sleeps). Cada um destes filmes aborda uma faceta diferente do capitalismo financeiro: a euforia descontrolada, a ilusão da recuperação após a crise e a cultura agressiva da bolsa nos anos oitenta. Em conjunto, mostram como o cinema soube dramatizar um mundo de excessos e riscos, tornando-o acessível a públicos muito vastos.
O Lobo de Wall Street
(The Wolf of Wall Street)
Entre os filmes sobre finanças, O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) ocupa um lugar especial, não apenas pelo impacto cultural, mas também pela impressionante carreira comercial. Realizado por Martin Scorsese em 2013 e protagonizado por Leonardo DiCaprio, o filme acompanha a ascensão de Jordan Belfort, corretor que constrói uma fortuna através de esquemas fraudulentos, manipulação de investidores e uma cultura empresarial assente no excesso absoluto. A força do filme reside no seu tom febril: mais do que explicar o funcionamento técnico da bolsa, mergulha o espectador num universo de riqueza rápida, festas intermináveis, drogas, corrupção e impunidade. O Dinheiro surge não como simples objecto económico, mas como combustível de uma máquina moralmente devastadora.
O êxito do filme deve-se em larga medida a essa energia quase operática. Scorsese filma Wall Street como um circo selvagem, ao mesmo tempo repulsivo e fascinante, e DiCaprio oferece uma interpretação magnética que transforma Belfort numa figura de carisma tóxico. O resultado foi um raro caso de convergência entre prestígio crítico, popularidade e retorno comercial. O filme tornou-se, para muitos espectadores, a referência contemporânea por excelência quando se pensa em Cinema sobre Finanças. Ao invés de apresentar uma lição moral simplista, mostra como a ganância pode ser socialmente recompensada e culturalmente glamourizada, o que talvez explique a sua permanência no imaginário colectivo.
Wall Street (Wall Street)
Wall Street (Wall Street), lançado em 1987, é um dos filmes mais influentes alguma vez feitos sobre o mundo financeiro. A história de Bud Fox, jovem corretor ambicioso que cai na órbita do lendário Gordon Gekko, tornou-se uma parábola clássica sobre sucesso, corrupção e compromisso moral. O filme nasceu num contexto muito específico: a exaltação do Dinheiro e da competição que marcou os anos oitenta, sobretudo nos Estados Unidos. Oliver Stone capta com precisão esse espírito de época, mostrando uma cultura em que vencer justificava quase tudo. A famosa máxima “greed is good”, associada a Gekko, ultrapassou o próprio filme e entrou na linguagem popular como síntese brutal de uma ideologia.
O sucesso comercial de Wall Street (Wall Street) foi significativo e, mais importante ainda, teve um alcance cultural muito superior ao habitual para um drama desta natureza. Michael Douglas venceu o Óscar de Melhor Actor e a personagem de Gekko passou a representar, para várias gerações, a face mais cínica do capitalismo financeiro. Curiosamente, o filme exerceu uma dupla influência: pretendia ser uma crítica à desumanização provocada pela obsessão com o lucro, mas acabou também por inspirar espectadores fascinados com o estilo e o poder da personagem principal. Essa ambiguidade contribui para a sua riqueza. Visto hoje, o filme mantém a capacidade de expor um sistema em que informação privilegiada, ganância e culto da vitória moldam não apenas carreiras, mas também consciências.
Wall Street:
O Dinheiro Nunca Dorme
(Wall Street: Money Never Sleeps)
Décadas depois do filme original, Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street: Money Never Sleeps) procurou actualizar o universo criado por Oliver Stone para a era posterior ao colapso financeiro de 2008. Michael Douglas regressa ao papel de Gordon Gekko, agora já fora da prisão e a tentar reinserir-se num mundo financeiro transformado, onde novos actores, novas tecnologias e novas formas de risco substituíram parte da velha mitologia do corretor clássico. A narrativa cruza esse regresso com a história de um jovem operador financeiro e com os efeitos em cadeia de uma crise que destrói fortunas, empresas e reputações. O filme esforça-se por ligar o drama familiar à turbulência dos mercados, sugerindo que os danos das finanças especulativas não são apenas abstractos: atingem relações humanas concretas.
Embora não tenha alcançado o estatuto cultural do primeiro Wall Street, esta sequela obteve um desempenho de bilheteira muito sólido para um drama financeiro. Isso revela que havia, na altura, um forte interesse do público por histórias capazes de traduzir em personagens e conflitos o trauma ainda recente da crise global. O filme beneficia também da presença de Gekko, uma personagem que já fazia parte da história do cinema e que regressa com o peso simbólico de uma era inteira. Se o original cristalizou a arrogância triunfante dos anos oitenta, esta continuação apresenta um capitalismo mais nervoso, mais complexo e menos confiante, mas nem por isso menos sedutor. Nesse sentido, funciona como retrato de uma época em que o sistema já revelara as suas falhas, sem ter perdido o seu poder de atracção.
Conclusão
Os três maiores sucessos de bilheteira ligados ao universo das finanças mostram que este tema, longe de ser incompatível com o grande público, pode gerar cinema envolvente e memorável. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) representa o excesso levado ao paroxismo; Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street: Money Never Sleeps) reflecte as ansiedades de um capitalismo ferido pela crise; e Wall Street (Wall Street) permanece como o grande retrato fundador da moral agressiva dos mercados modernos. Cada filme pertence ao seu tempo, mas todos partilham a mesma intuição: o Dinheiro, quando posto no centro da vida social, produz sempre drama, sedução e conflito.
No fundo, o êxito destes filmes explica-se porque falam de muito mais do que finanças. Falam de desejo, estatuto, ilusão, poder e queda. A bolsa, os bancos e os grandes negócios são apenas o palco onde se desenrola uma velha história humana: a tentação de querer sempre mais. É precisamente essa dimensão universal que permitiu a estes títulos ultrapassar o nicho dos filmes “sobre economia” e conquistar públicos vastos em todo o mundo.
Referências
Resenha de “Wall Street” na Wikipédia: Wall Street (filme)
Trailer de “Wall Street – o dinheiro nunca dorme” no Cinecartaz: Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme
Sinopse de “O Lobo de Wall Street” no Adoro cinema: O Lobo de Wall Street – Filme 2013


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